Resenhas

O Herói de Mil Faces: A Jornada do Herói e a Filosofia Oculta de Star Wars

Descubra a resenha de O Herói de Mil Faces de Joseph Campbell. Entenda a Jornada do Herói, a filosofia oculta de Star Wars e o que realmente é a Força.

Por Vitória Ferreira••9 min de leitura
O Herói de Mil Faces: A Jornada do Herói e a Filosofia Oculta de Star Wars

Em 1977, quando o primeiro filme da saga Star Wars (Guerra das Estrelas) estreou nos cinemas, o mundo inteiro foi arrebatado por um espetáculo visual sem precedentes. No entanto, o verdadeiro motivo pelo qual a história de Luke Skywalker e Darth Vader ressoou de forma tão visceral e intemporal na alma humana não teve nada a ver com sabres de luz ou naves espaciais. O sucesso estrondoso de George Lucas deve-se a um segredo que ele não esconde de ninguém: o seu guião foi meticulosamente decalocado de um livro de mitologia comparada e psicologia publicado em 1949.

Esse livro é O Herói de Mil Faces, escrito pelo brilhante mitologista Joseph Campbell.

Ler este livro é descobrir a "fórmula secreta" de todas as histórias que alguma vez amámos. Campbell passou anos a estudar os mitos antigos, desde Buda a Jesus Cristo, passando por Prometeu, Osíris, e pelas lendas indígenas de todo o mundo. A sua conclusão foi arrebatadora: todas as culturas humanas, separadas por oceanos e milénios, estão a contar exatamente a mesma história. Campbell chamou a esta narrativa universal de O Monomito, ou A Jornada do Herói.

Nesta nossa o herói de mil faces resenha, vamos mergulhar na profunda filosofia Star Wars e entender como os conceitos de iniciação, superação e misticismo revelados por Campbell funcionam como um mapa exato para o nosso próprio despertar de consciência no mundo real.


O Que é a Jornada do Herói? O Despertar da Alma

A Jornada do Herói Joseph Campbell não é uma invenção literária; é um eco do subconsciente coletivo humano, como diria o psiquiatra Carl Jung. Ela mapeia o processo doloroso e transformador através do qual uma pessoa comum deixa o seu ego infantil para trás, enfrenta os demónios do seu subconsciente e renasce como um ser iluminado e maduro.

A jornada divide-se classicamente em três grandes fases: a Partida (ou Separação), a Iniciação (ou Descida ao Submundo) e o Retorno.

1. O Chamado à Aventura e a Recusa

Tudo começa no "Mundo Comum". Luke Skywalker é um jovem entediado que trabalha na quinta dos tios num planeta desértico (Tatooine). Este é o equivalente mítico da nossa zona de conforto, o estado de sono profundo antes do despertar espiritual. Quando recebe a mensagem da Princesa Leia (o Chamado à Aventura), a primeira reação de Luke é recusar. Ele diz que tem responsabilidades na quinta e que não pode ir. Todos nós fazemos isso. Quando sentimos a intuição a chamar-nos para mudarmos de carreira, terminarmos um relacionamento ou começarmos a meditar, o nosso ego apavora-se e recusa o chamado. No entanto, como ensina o mito, a recusa nunca dura. Uma crise força o herói a atravessar o limiar.

2. O Encontro com o Mentor

Logo no início da sua jornada, o herói depara-se com um arquétipo fundamental: o Velho Sábio. Em Star Wars, trata-se de Obi-Wan Kenobi e, mais tarde, do Mestre Yoda. Estes mentores são os guardiões da sabedoria oculta. Eles entregam ao herói o seu talismã (o sabre de luz) e começam a transmitir-lhe as leis esotéricas do universo.

3. A Barriga da Baleia e a Iniciação

Na mitologia antiga, o herói costuma ser engolido por um monstro (como Jonas e a Baleia). Em Star Wars, a nave de Luke é engolida pela gigantesca Estrela da Morte. Esta fase representa a morte do velho ego. O herói tem de enfrentar uma série de provações terríveis. O momento culminante é a "Aproximação à Caverna Mais Oculta", onde enfrenta o seu próprio Pai ou a sua "Sombra" (Darth Vader). Este é o momento em que o indivíduo comum olha para os seus próprios traumas e resolve as suas feridas internas mais profundas, abraçando a escuridão para encontrar a luz.


O Que é a Força? A Tradução Pop do Hermetismo

Um dos maiores contributos da filosofia Star Wars para a cultura pop é, sem dúvida, o conceito místico da "Força". Quando Obi-Wan descreve a Força a Luke, ele diz: "É um campo de energia criado por todas as coisas vivas. Ela rodeia-nos, penetra-nos e mantém a galáxia unida."

Mas para o leitor atento aos temas esotéricos e às escolas de mistérios, o que é a Força realmente? É a tradução de Hollywood para um conceito milenar que surge em absolutamente todas as tradições de alta espiritualidade.

  • O Prana e o Chi: No hinduísmo e nas práticas de ioga, a energia vital universal que flui através de todas as coisas e que pode ser manipulada através da respiração e da intenção chama-se Prana. Na medicina tradicional chinesa e no taoísmo, chama-se Chi.
  • O Princípio de Mentalismo Hermético: Se leu a nossa análise sobre O Caibalion e as 7 Leis Herméticas, sabe que "O Universo é Mental". A capacidade dos Jedi de moverem objetos, lerem mentes e sentirem perturbações a anos-luz de distância é a representação exata do domínio sobre a Mente Universal. O universo não é matéria morta; é um organismo vivo e interligado, sensível à vontade de uma mente focada e purificada.

Quando Yoda diz a Luke: "A diferença existe apenas na tua mente", ao explicar que levantar uma nave gigante ou uma pequena pedra exige a mesma Força, ele está a dar uma aula magna sobre a Lei da Suposição. A limitação não reside na matéria, mas nas crenças solidificadas no nosso próprio subconsciente.


O Lado Luminoso e o Lado Negro (O Princípio de Polaridade)

A divisão entre os Jedi (lado luminoso) e os Sith (lado negro) reflete perfeitamente a dança das polaridades.

O Lado Negro não é necessariamente "o mal abstrato". Em Star Wars, o Lado Negro é impulsionado pelo Medo, pela Raiva e pelo Apego. Anakin Skywalker (Darth Vader) sucumbe ao Lado Negro não porque quer destruir a galáxia, mas porque tem o pânico patológico de perder as pessoas que ama (um apego material desmedido). Ao tentar controlar o exterior através da raiva, ele perde o domínio interior.

Por outro lado, o Caminho dos Jedi requer o Desapego, o autodomínio e o controlo absoluto das emoções (a "apatheia" dos sábios gregos e romanos). É uma filosofia estritamente baseada no Estoicismo. Se quiser treinar a sua mente com a mesma disciplina de um Cavaleiro Jedi, não precisa de um sabre de luz, mas sim de estudar clássicos como as Meditações de Marco Aurélio e a construção da Cidadela Interior. Os estoicos acreditavam no Logos, a força racional e universal que governava o destino humano, com a qual deveríamos alinhar a nossa mente.


Por Que Você Precisa Ler "O Herói de Mil Faces"?

Ler Joseph Campbell é um ato de profunda expansão de consciência. A partir do momento em que termina as primeiras páginas d'O Herói de Mil Faces, a sua forma de ver o mundo altera-se para sempre. Nunca mais conseguirá assistir a um filme, ler um romance ou sequer ouvir a história de vida de um amigo sem identificar em que ponto exato da Jornada do Herói a pessoa se encontra.

Mas o objetivo final da obra de Campbell não é a crítica literária ou cinematográfica. O propósito supremo do mito é servir de mapa terapêutico para a nossa própria vida.

Neste exato momento, você é o herói da sua própria existência. Se a vida parece ter perdido o sentido ou a cor, isso significa que você, muito provavelmente, está a ignorar o seu "Chamado à Aventura". Pode ser o chamado para curar os seus traumas do passado, para iniciar uma nova jornada de autoconhecimento, para perdoar alguém que o feriu, ou simplesmente para parar de adiar o seu grande sonho.

A iniciação exige sempre sacrifício. Envolve enfrentar os nossos medos irracionais no silêncio do nosso Ritual Noturno, curar o nosso corpo libertando o nervo vago das emoções reprimidas, e descer às profundezas da nossa psique (a barriga da baleia) para recuperar o tesouro escondido.

Como Campbell magistralmente escreveu: "A caverna na qual você tem medo de entrar guarda o tesouro que você procura."

Respire fundo. Que a Força — o Prana, o Chi, o Logos Cósmico e a Mente Universal — esteja sempre consigo na sua própria Jornada.